Então, galera, hoje vou abordar uma ciência sobre a qual já venho lendo algumas coisas a respeito há algum tempo e que me despertou muito interesse por se tratar de uma ótima ferramenta para compreender algumas análises mais sociológicas da História, como as que Hobsbawm faz: a Economia Política. Bom, é simplesmente um dos assuntos mais complicados dentre todas as ciências sociais, tão complicado que vários autores de renome se contradizem até mesmo na simples definição do objeto de estudo, do que é e quando surgiu, de fato, essa ciência. Que fique claro que as opiniões aqui emitidas são semi-leigas, e que, por isso, têm a intenção mais de provocar em vocês o desejo de conhecer um pouco melhor essa ciência do que qualquer outra coisa. Tem também o intuito de tentar desmistificar essa ideia errônea que as pessoas têm da Economia, de que ela só trata de cálculos chatos, bolsa de valores, juros, crédito, câmbio etc.
Bom, meu interesse pela coisa não foi do nada. O que ocorreu foi quase uma feliz coincidência: eu tinha muita curiosidade acerca dos princípios e das bases do pensamentos marxista e queria começar uma leitura mais real sobre o assunto, a título de introdução, e fui pedir ajuda para meu padrinho, conhecido estudioso dos pensamentos e conceitos de Karl Marx. Vendo essa minha curiosidade como algo a ser estimulado, ele me passou uma série de textos introdutórios do pensamento marxista, como "O Manifesto", o prefácio da "Dialética da Natureza"(de Engels), uns trechos de "A Ideologia Alemã" e, por fim, o prefácio(e alguns trechos) de "Para Crítica da Economia Política". Esse último em particular me apresentou um leque bem amplo de conceitos básicos e imprescindíveis para melhor entender a ideologia marxista, os quais eu desconhecia o sentido real, tendo só uma vaga ideia do que se tratava realmente, como "forças produtivas", "modo de produção" e outros, dentre os quais o de "Economia Política". Eu assumi, como acho que a maioria faria, que se tratava de Economia, ou algo do gênero, e por economia eu entendia as relações e regras que narram tão somente exportações, importações e acúmulo de capital de um Estado ou grupo(uma visão estereotipada dessa ciência). Mas acontece que em determinado momento, Marx descreve a Economia, mais especificamente a estrutura econômica de um grupo, como "A base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política", e, pensando mais afundo sobre essa definição e as implicações que ela tinha, ficou evidente para mim, naquele momento, algo que eu já havia observado antes, mas que nunca havia dado a credibilidade devida: a economia é o que determina, em maior ou menor grau, tanto o corpo jurídico de uma sociedade(suas leis, suas penas, a configuração de seus tribunais, bem como a hierarquia deste etc), quanto o político(a forma de governo, a estrutura que determina como será a representatividade, o grau de participação de cada cidadão comum etc), e conforme eu ia me aprofundando nas leituras, mais ia vendo que precisaria de uma noção mais concreta do que é, de fato, essa Economia Política, do contrário ia me perder na leitura, algo fácil de acontecer quando se tem 16 anos e se tenta ler Marx. Foi então que fui buscar alguém, algum autor, que abordasse o assunto de uma forma tão didática quanto possível, e foi então que encontrei, nas coisas de minha mãe, um livro intitulado "Introdução à Economia Política", da Rosa Luxemburgo.
Rosa Luxemburgo era uma respeitada e conceituada economista alemã, marxista, do fim do século XIX e início do século XX, que dava aulas sobre "Nationaloekonomie"(Economia Política, que em alemão é, na verdade, Economia Nacional) na Universidade de Berlim. No livro em questão, ela aborda de maneira bastante didática, e às vezes até irônica, vários aspectos dessa ciência. Ela começa retratando justamente a dificuldade que os estudiosos têm em definir o que é e o que estuda essa ciência, citando e comentando de forma bastante divertida as definições de dois figurões da Universidade de Berlim, que falam, falam e falam ainda mais sobre o assunto, mas no fim das contas não falam absolutamente nada. Feito isso, ela convida o leitor a uma viagem pela história da evolução da produção e troca de excedentes da história humana, e então começa a aula sobre o assunto. Ela desenvolve um pensamento não-linear para explicar os fenômenos econômicos, mas relativamente fácil de ser seguido, e se utiliza de exemplos e situações em vários países para demonstrar o que deseja, começando pelo fenômeno da "globalização da economia", fenômeno esse que aponta a redução da autonomia da economia nacional(microcosmo) em relação à economia mundial(macrocosmo), sendo a primeira, nessa situação, uma célula componente de um complexo organismo(a segunda) que vem se formando há muito tempo; desde as interações multi-étnicas no mediterrâneo e os intercâmbios culturais ocorridos na Ásia, graças a unificações como as da China e a levada a cabo por Gengis Khan, até o ápice do processo evolutivo: a Revolução Industrial no final do século XVIII.
O livro se estende com vários exemplos da interdependência entre os países(como a impressionante produção industrial da Alemanha do século XX, país com baixa reserva de alguns minerais, mas que investia pesadamente no setor tecnológico, e que, portanto, via-se em necessidade direta de outros países para desenvolver sua principal atividade econômica). Nas palavras de R. Luxemburgo: "O proletário alemão, que fica no seu país e que se quer alimentar honestamente, depende constantemente, para o melhor e o pior, do desenvolvimento da produção e do comércio em todo o mundo. Terá ou não trabalho? O seu salário bastará para saciar mulher e filhos? Estará condenado vários dias por semana a tempos livres forçados ou ao inferno do trabalho suplementar de dia e de noite? A sua vida é uma oscilação contínua, dependente da colheita de algodão nos Estados Unidos, da ceifa do trigo na Rússia, da descoberta de novas minas de ouro ou diamantes na África, das perturbações revolucionárias do Brasil, dos conflitos alfandegários, das perturbações diplomáticas e das guerras nos cinco continentes. Nada é mais chocante hoje, nada tem uma importância tão decisiva para a vida política e social atual, do que a contradição entre este fundamento econômico comum, que cada dia que passa une mais solidamente e mais estreitamente todos os povos numa grande totalidade, e a superestrutura política dos Estados."
Entendendo esse processo narrado pela autora, começamos a entender o real papel da economia, bem como sua real natureza. Quando passamos a considerar a Economia o que ela realmente é(o estudo da produção intelectual e/ou material humana, a nível de subsistência e necessidade, seja ela real ou engendrada por fatores externos, e das relações interpessoais envolvidas no processo) e conferirmos a ela um caráter mais histórico-filosófico, vemos a poderosa ferramenta de entendimento dos fatos sociais que ela é. Vemos, por exemplo, a importância de saber das condições políticas e financeiras de países que exercem influência cambial no Brasil(de modo a entender quando estamos sendo ameaçados e como agir caso isso ocorra) e percebemos por que é que, por exemplo, quando um país aparentemente irrelevante em termos financeiros, como a Grécia ou a Espanha, quebra, todo um bloco econômico de gigantes(U.E.) sente os efeitos negativos. Entendemos como um país pode exercer seu imperialismo frente a economias menos desenvolvidas e, por meio de sanções econômicas e outros mecanismos, influenciá-las política e culturalmente. Em análises que requerem um grau maior de sensibilidade, o qual não disponho tanto quanto gostaria, começamos a entender como o capitalismo industrial, enquanto modelo econômico de produção, influencia nos nossos gostos, nas nossas relações(tanto amorosas, quanto fraternais, profissionais e religiosas) e como ele nos molda de modo a sermos ferramentas de coerção às tentativas de fuga dos padrões necessários à sua existência, como os impostos pela cultura de massa: a estética, a moda e, no fim de tudo isso, um verdadeiro "estilo de vida", um "american way of life", se preferirem assim.
Depois de considerar tudo isso, passamos até mesmo a entender o processo evolutivo histórico de forma diferente. Vemos a importância de se conhecer os hábitos econômicos do cidadão comum de cada sociedade, pois sabemos que é ele(e seus gostos, suas preferências), o qual constituiu sempre a maioria da população, quem serve de mercado consumidor e pauta grande parte, se não todas, as maiores relações comerciais tanto internas quanto externas do Estado no qual está inserido, independente do modo de produção da sociedade em questão, e entendemos que os eventos históricos marcantes são, na realidade, os desdobramentos da vida dessas pessoas(à exceção de alguns casos, como algumas guerras iniciadas por brigas entre famílias reais, por exemplo), isto é, a conjectura histórica de cada evento é pautada, e pode até mesmo ser aferida, pela economia. Oras, o que são as revoluções se não o extravaso dos anseios da maioria?! E o que são esses anseios se não relações econômicas(subsistência)? Levando isso em conta, vemos porque é que os burgueses se sobrepuseram aos reis absolutistas nos séculos XV-XVIII: os primeiros detinham o poder real sobre os meios de produção e começavam a se apoderar das forças produtivas, se utilizando inclusive de toda uma argumentação lógica, proveniente dos ensaios iluministas(em sua maioria, filósofos burgueses) acerca da legitimidade do poder, para alcançar o poder político, enquanto que os segundos, se entendermos o paradigma econômico europeu como algo em transição, passavam a ter seu poder e sua influência baseadas em relações cada vez mais frágeis, no que tange ao uso da razão, relações essas que nada mais eram além de resquícios de um espírito de medo feudal. Vendo tudo isso, compreendemos um pouco o lado mais orgânico da sociedade; vemos que a história não é tão somente a narração de fatos e datas importantes, mas se aproxima mais da definição de Marc Bloch: "A História é a ciência dos homens no tempo."
Fechando todo esse raciocínio, gostaria de convidá-los todos a se enveredarem por esse caminho de adoção de uma postura mais curiosa em relação às ciências sociais, pois são elas que nos ajudam a entender grande parte do que aconteceu no nosso processo de formação cultural de forma menos errada e, feito isso, o presente passa a fazer mais sentido, na mesma proporção em que respostas às questões da ordem da problemática social ficam mais claras. Desenvolvam o hábito de enquadrar seus estudos num processo dialético de se informar, contestar o que os foi passado, e extrair o produto disso para enriquecer seu conhecimento geral, sua bagagem cultural, porque só assim algo pode realmente mudar de verdade, bem como só assim você pode ter certeza de que nunca será enganado em relação a seus direitos e suas aptidões.
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